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Estamos na era do digital, as novas tecnologias galopam cada vez mais. A Internet veio para ficar, isso já todos sabemos.
Um estudo recente mostra que os adolescentes portugueses apresentam um valor de utilização excessiva do smartphone (57%) que é superior à média europeia (48%).O uso excessivo do smartphone, é de tal modo grave que nalguns países asiáticos, como a Coreia do Sul, obrigou o Ministério da Educação deste país a criar um programa de prevenção e identificação precoce de crianças e jovens em risco. Em Portugal também se têm realizados alguns estudos, acompanhando a preocupação mundial sobre os efeitos excessivos da utilização do Smartphone. Saliento aqui um estudo recente bastante relevante, em que foram inquiridos jovens portugueses até aos 25 anos, cujos resultados mostram que 70% apresentam sinais de dependência do mundo digital, em que 13% são casos graves, podendo implicar isolamento ou comportamentos violentos e que obrigam a um tratamento. Devo salientar que o apego ao Smartphone pode não ser algo necessariamente negativo, e por isso condenável ou proibido. O problema surge quando a utilização se torna excessiva, quando se está viciado no telemóvel, começando a interferir com a saúde física e bem-estar psicológico da pessoa.
Não são só os jovens que nos dias que correm estão todo o tempo ligados ao telemóvel. Os adultos também. Basta andarmos de transportes públicos ou estarmos numa sala de espera, se olharmos em redor está tudo sempre ao telemóvel. Ainda conseguimos encontrar alguém a ler um livro ou o jornal mas infelizmente são escassos. Já não “se mete conversa” para o lado como antigamente. Os telemóveis não servem apenas para falar e enviar mensagens. São Smartphones com o mundo através de um verdadeiro clik. Há milhares de aplicações para tudo. Agora estes comportamentos podem ser preocupantes, tal como tudo o que é excessivo.  Para os adolescentes sobretudo, com o telemóvel no bolso perde-se a capacidade ” de se aborrecer”. Nunca há o nada para fazer. A capacidade de estarmos connosco próprios.

Atenção que o uso de dispositivos tecnológicos está longe de ser prejudicial. Se bem orientado, pode estimular a criatividade, o raciocínio lógico, a colaboração, a capacidade de pesquisa e outras competências valiosas para o mundo contemporâneo. No entanto, é preciso moderação. O aumento da dependência sobretudo do telemóvel tem preocupado pais e educadores do mundo todo. É facto de que boa parte das tarefas quotidianas envolve cada vez mais tecnologia tornando dificílimo definir esse equilíbrio. É comum que, mesmo entre os adultos, a distinção entre o trabalho e o lazer se faça apenas pela troca de aplicativos: fecham-se o e-mail e os programas do computador, abrem-se as redes sociais. Da mesma forma, os jovens e até as crianças usam tecnologias na escola e nas pesquisa. Depois, vão para os jogos e as mensagens digitais – muitas vezes, sem nem sair do quarto. Passam os dias, uns e outros, “colados” em ecras . Até que, em alguns casos, o hábito se transforma em dependência.

O telemóvel em regra geral deve ser dado a partir dos 11/12 anos. É evidente que não é regra, cada família saberá a altura certa. E também todas as circunstancias em redor. Se há por exemplo uma guarda partilhada, se andam sozinhos na rua, etc. Uma criança que tenha 12 anos por exemplo que vá e venha da escola/actividades acompanhado não terá tanta necessidade de o ter. Porém há todo o contexto social também. Hoje em dia os jovens desde cedo são autónomos nas suas combinações e por vezes não ter telemóvel implica ser de certa forma “excluído”. É necessário gerir muito bem todos os factores. Porém as regras de utilização devem ser transmitidas antes disso. Desde cedo os pais deverão incutir o controlo da internet, o tempo de utilização, o tipo de jogos/apps que utilizam as crianças, que desde cedo começam a manipular os tablets, Ipads, computadores e telefones dos pais. Se não existir essa iniciação será muito mais difícil na adolescência.

Os pais têm o papel essencial de serem modeladores de comportamento. Desde cedo as crianças imitam os pais e tudo. Se uma família está sentado à mesa e os adultos estão ao telemóvel será assim que os filhos irão crescer, com esse exemplo. Acabarão por fazer o mesmo e todo o discurso cairá por terra. O nosso papel enquanto educadores é ensinar valores, ensinar a fazer coisas, ensinar e partilhar formas de estar e de ser. Quilo que ensinamos será o que os filhos irão levar para a vida fora.
É importante que os pais criem boas memórias, com espaço para rir, brincar e ser cúmplices dos filhos. Não se pode dar aquilo que não se tem. E os filhos esperam que os pais percorram antes deles o caminho para depois acompanharem as suas pegadas. Pais que sabem para onde vão, como vivem e para que vivem, saberão certamente ensinar aos filhos o caminho.

O que é que as crianças e os adolescentes podem fazer para substituir o tempo que passam ligados no telemóvel? Essa questão é muito difícil de responder. Não há receita para isso. É fácil entregar um telemóvel a uma criança num restaurante para que esteja quieta, em silêncio e não perturbar as outras pessoas.Ora, não se pode pedir a uma criança pequena que fique 2 horas sentada a uma mesa “bem comportada”. O telemóvel funciona para que isso resulte. Há situações nas quais o uso se torna (quase) essencial. Temos de encontrar outras estratégias nas alturas em que o seu uso não seja realmente imprescindível. Incentivem os jovens a estarem, em vez de conversarem nos chats. Convidem um amigo para casa, recordem os jogos tradicionais jogados em família, sobretudo nas crianças mais pequenas. Nos adolescentes a tarefa torna-se mais complicada.

De que forma se pode precaver? A palavra de ordem no uso desses aparelhos é bom senso. Pais inteligentes devem usar a tecnologia a seu favor, cientes de que o contacto físico, o olhar, o calor do toque, não são substituídos por uma mensagem de texto. Essa questão não deve ser encarada como usar ou não a tecnologia – porque é praticamente impossível viver sem esses recursos na actualidade – e sim, como aproveitá-los ao máximo.Assim como outras actividades, o uso das novas tecnologias exige muito dos pais numa das tarefas mais difíceis e complicadas: a aplicação dos limites. É possível que, em situações de uso excessivo das novas tecnologias, possa haver uma certa dificuldade da família em impor limites claros aos filhos.Dar permissão para o acesso não é igual a dar autonomia. Crianças e adolescentes precisam de regras, os limites precisam estar claros. Uma boa estratégia é definir previamente o tempo de uso, com horários previamente estabelecidos . É preciso saber encontrar tempo longe das tecnologias. Um cérebro bombardeado de estímulos é um cérebro que não descansa, e se não descansa não produz.

Aprender a ler e escrever é dos maiores desafios da infância. As crianças não só devem estar cognitivamente aptas para aprender, como também emocionalmente disponíveis.
A maturidade, ou seja a nossa disponibilidade para aprender não chega a todos ao mesmo tempo, já para não falar que, na entrada para o primeiro ciclo, nem todas as crianças já têm os 6 anos feitos. Nestas idades 12 meses ainda faz muita diferença no desenvolvimento cognitivo e emocional. Desta forma muitos pais nos procuram para fazer a chamada avaliação de entrada para o 1ºAno. Aqui conseguimos perceber quais são os recursos cognitivos que a criança apresenta (no momento) e perceber a sua disponibilidade para os usar.
Aprender a ler e a escrever tem todo um processo neurológico (descodificação dos sons), visual, auditivo, cognitivo e emocional na base.
Uma criança que não ouve ou veja bem como é evidente terá as suas dificuldades na aquisição da leitura. Desta forma é sempre recomendado fazer um despiste visual e auditivo também.
Não podemos deixar de fora o factor emocional! A disponibilidade para aprender é essencial. Ganhar gosto e coragem para crescer são dois factores que também não devem ser ignorados!
De qualquer forma é com 6 anos feitos (até setembro ou não) que as crianças ingressam no primeiro ano. Actualmente, já são muitos os pais que surgem em consulta com a dúvida se os filhos estarão preparados para enfrentar este desafio! Conseguem perceber que ainda são imaturos e que talvez brincar mais um ano teria, ou não, todos os benefícios. Não é assim tão linear… Pessoalmente não sou muito a favor do adiamento ou adiantamento de escolaridade, sobretudo se comprometer a socialização.
É suposto no primeiro ano as crianças aprenderem a ler e a escrever. Cada escola com o seu método de leitura, mas pela altura da Páscoa, já todas as crianças deverão saber ler de forma (quase) autónoma. Não é uma corrida, mas há sempre quem consiga chegar primeiro à meta. O nosso desenvolvimento cognitivo não é igual para todos. Cada criança tem o seu ritmo, velocidade de trabalho e aprendizagem.
Na passagem para o segundo ano é por vezes quando surgem os maiores problemas, ou pelo menos onde os professores e os pais notam que pode haver alguma questão a comprometer este processo. A Língua Portuguesa não é de todo fácil de aprender. Há muitas regras gramaticais, muitos casos especiais de leitura e aquelas casos onde não ha regra nem justificação. Como caso de “xilofone” que tem o som “ch” se escrever com a letra x e não com ch.
Desta forma a complexidade é muita e as crianças necessitam de tempo para consolidar todas estas regras e conseguir automatizar todo o processo.
Surgem nesta altura os pedidos ou as suspeitas de Dislexia. Sem falar nos factores genéticos e/ou hereditários, a verdadeira dislexia não é muito frequente.
É essencial haver uma avaliação de consciência fonológica, para tentar perceber se há ou não dificuldade em descodificar os sons que ouvimos. A forma como ouvimos será a forma como os vamos escrever. E se houver alguma falha, todo o processo de aprendizagem fica comprometido.
Além da Dislexia, e até mais frequentemente podemos encontrar:

Disgrafia (afeta o grafismo e a capacidade de se exprimir pela via da escrita);
Disortografia (nível da construção frásica que se apresenta pobre e ao nível da ortografia observa-se frequentes e variados erros ortográficos);
Discalculia (défice na matemática, associada a dificuldades ao nível do cálculo e do raciocínio lógico-matemático);
Como já referi em cima, é fundamental realizar uma avaliação sempre que haja suspeita de alguma dificuldade. Quanto mais cedo actuarmos, mais cedo se consolida todo o processo de aquisição da leitura e da escrita, e mais depressa superamos as dificuldades. As crianças ficam mais confiantes, mais motivadas e por fim mais felizes!